A terapia de casal tem especificidades técnicas e éticas que não estão cobertas pelo modelo de atendimento individual. O contrato é diferente — envolve duas pessoas com interesses que podem divergir. O sigilo é diferente — dois clientes no mesmo espaço clínico. O prontuário é diferente — uma relação como objeto de trabalho, não uma pessoa isolada.

Este artigo cobre o que o psicólogo que quer trabalhar com casais precisa organizar antes de atender o primeiro casal.

Setup físico e de espaço

O consultório para terapia de casal precisa de ajustes em relação ao atendimento individual:

  • Assento para três pessoas: o profissional e os dois membros do casal. Uma configuração triangular — sem que um dos membros fique posicionalmente mais próximo do terapeuta que o outro — favorece a neutralidade visual do espaço.
  • Evitar sofá de dois lugares ao lado do terapeuta: a posição física reforça ou neutraliza alianças implícitas. Poltronas individuais para cada membro do casal costumam funcionar melhor.
  • Sala com isolamento acústico adequado: o conteúdo das sessões de casal tende a ser mais intenso emocionalmente — e mais comprometedor para a privacidade do que sessões individuais.
  • Para atendimento online: ambos os membros podem estar no mesmo ambiente (câmera conjunta) ou em ambientes separados (câmeras individuais). Cada formato tem implicações para a dinâmica — defina com o casal qual prefere e registre no contrato.

Contrato: o que muda com dois clientes

O contrato de honorários com um casal precisa cobrir pontos que o contrato individual não tem:

Quem paga

Os dois assinam o contrato e são co-responsáveis pelo pagamento, ou um paga pelo casal? Isso precisa estar explícito. Em caso de separação durante o tratamento, quem paga as sessões que ficaram em aberto? Se a sessão for marcada por um e o outro cancelar, o cancelamento é cobrado?

O que acontece em caso de separação do casal

Se o casal se separar durante o processo, o psicólogo pode continuar atendendo um dos membros individualmente? Ou os dois individualmente? Ou nenhum? Essa regra precisa estar no contrato — e é uma decisão técnica e ética que o profissional precisa tomar antes, não quando a situação acontecer.

Sessões individuais dentro do contexto de casal

Algumas abordagens de terapia de casal incluem sessões individuais de cada membro com o terapeuta. Se for o caso, o contrato precisa explicitar como funciona o sigilo nessas sessões — se o que for dito individualmente pode ou não ser trazido para as sessões conjuntas.

Sigilo: o ponto mais delicado

Na terapia de casal, o sigilo tem uma camada adicional de complexidade: o psicólogo tem dois clientes cujos interesses podem divergir — e precisa manter a confiança dos dois.

Existem dois modelos principais de gestão do sigilo em terapia de casal:

Modelo de transparência total

O profissional informa ao casal que não mantém segredos de um parceiro para o outro — qualquer informação relevante para o processo terapêutico pode ser discutida em sessão conjunta. O profissional não aceita revelar a um parceiro o que o outro disse em sessão individual.

Vantagem: regra clara, menor risco de alianças implícitas. Desvantagem: pode inibir a abertura de um dos membros nas sessões individuais.

Modelo de sigilo individual

O que um parceiro diz em sessão individual é tratado com sigilo em relação ao outro — exceto em situações de risco que justifiquem quebra de sigilo. O profissional fica com a responsabilidade de manejar informações assimétricas sobre o casal.

Vantagem: mais abertura nas sessões individuais. Desvantagem: o profissional pode se encontrar com informações que afetam a conduta clínica e que não pode usar explicitamente.

O modelo adotado deve estar explícito no TCLE antes do início do atendimento. Não há resposta certa — há a resposta coerente com a abordagem e com o que o profissional consegue manejar eticamente.

Prontuário: único ou individual

A questão do prontuário em terapia de casal não tem resposta única no código de ética — mas tem implicações práticas importantes.

Abordagem Vantagem Risco
Prontuário único do casal Simplicidade operacional, casal como unidade clínica Acesso individual a dados do outro em caso de separação ou solicitação LGPD
Dois prontuários individuais, com referência cruzada Preserva sigilo individual, facilita portabilidade LGPD Mais trabalho de registro, pode gerar redundância

A opção mais segura do ponto de vista da LGPD é manter prontuários individuais para cada membro, vinculados entre si, com as sessões conjuntas registradas nos dois. Se um dos membros solicitar acesso aos seus dados (direito garantido pela LGPD), o profissional entrega apenas o prontuário daquela pessoa — sem expor o do outro.

Em caso de separação do casal com disputa judicial, prontuários individuais evitam que informações de um parceiro sejam acessadas pelo outro via solicitação legal.

Cobrança: como precificar sessão de casal

Sessão de casal exige mais do profissional do que sessão individual — mais variáveis em jogo, sessão normalmente mais longa e demanda maior de preparação. Cobrar o mesmo valor que a sessão individual subvaloriza o trabalho.

Referências de mercado:

  • Sessão de casal de 50 min: entre 1,2 e 1,4 vezes o valor individual
  • Sessão de casal de 60–80 min (mais comum): entre 1,4 e 1,7 vezes o valor individual

Além do valor por sessão, defina no contrato:

  • Quem é responsável pelo pagamento (um dos membros ou os dois solidariamente)
  • O que acontece se um dos membros cancelar na última hora e o outro comparecer
  • Se sessões individuais dentro do processo têm valor igual ou diferente das sessões conjuntas

Dois pacientes, um prontuário ou dois — você decide

No AgilizaPSI, você vincula prontuários entre si e registra sessões conjuntas em ambos com um clique — sem duplicar anotações manualmente.

Quando encaminhar para outro profissional

Terapia de casal tem indicações e contraindicações. Situações que geralmente indicam encaminhamento ou reavaliação da modalidade:

  • Violência doméstica ativa: sessões conjuntas não são indicadas quando há violência em curso — o espaço compartilhado pode intensificar o risco para a vítima.
  • Quando um dos membros está em crise psiquiátrica aguda: a demanda individual pode sobrepor a capacidade de trabalho relacional.
  • Segredo grave que inviabiliza o trabalho conjunto: se um dos membros revelou em sessão individual algo que torna impossível conduzir a terapia com neutralidade, pode ser necessário encerrar a terapia de casal e encaminhar os dois para atendimentos individuais com outros profissionais.

Perguntas frequentes

Prontuário de casal: um ou dois?

A opção mais segura para a LGPD é dois prontuários individuais vinculados entre si. Se um dos membros solicitar acesso aos seus dados, você entrega apenas o dele — sem expor as informações do outro. Prontuário único é mais simples, mas cria complicações em caso de separação ou disputa judicial.

Como funciona o sigilo quando atendo o casal?

Você define o modelo antes de começar e coloca no TCLE: transparência total (não mantenho segredos de um para o outro) ou sigilo individual (o que um me conta individualmente fica entre nós, exceto risco de vida). Não há resposta certa — há a que é coerente com sua abordagem e que você consegue manejar eticamente. O que não pode acontecer é não ter regra definida.

Quanto cobrar por sessão de casal?

Entre 1,3 e 1,7 vezes o valor da sessão individual, dependendo da duração e da complexidade. Sessão de 80 minutos de casal não custa o mesmo que sessão individual de 50 minutos — a demanda do profissional é maior. Defina também quem paga e o que acontece em cancelamento parcial.

Posso atender um membro do casal individualmente depois?

Pode, mas com cuidados — e isso precisa estar definido no contrato antes do início. O que você conhece de um dos membros a partir da terapia de casal afeta a neutralidade do atendimento individual. Alguns profissionais adotam a regra de não atender individualmente quem já atenderam em casal — é uma decisão técnica e ética, não uma proibição ética absoluta.

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