Prática Clínica

Plataformas para Terapia Online: Comparativo para Psicólogos e Checklist de Segurança

Por Agiliza Terapias · Setembro 2026 · 12 min de leitura

Pesquise "plataformas para terapia online" e o Google devolve uma fila de marketplaces convidando pacientes a marcar sessão. Para quem está do outro lado da tela, a pergunta é diferente: onde eu atendo? Num marketplace que traz o paciente e fica com uma parte do honorário, numa sala do Google Meet ou do Zoom que você mesmo configura, ou num sistema de gestão que já integra agenda, link de sessão e prontuário?

A escolha ficou mais sua desde a Resolução CFP nº 09/2024, que revogou a norma de 2018, acabou com o cadastro e-Psi e não homologa nenhuma plataforma. Isso significa que ninguém vai aprovar a sua ferramenta por você. Este artigo compara os três modelos pelo que a norma exige na prática e termina com um checklist para você fechar a primeira sessão sem improviso.

O que a Resolução CFP 09/2024 muda na escolha da plataforma

A Resolução CFP nº 09, de 18 de julho de 2024, regulamenta a prestação de serviços psicológicos por Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDICs) e revoga expressamente a Resolução 11/2018 e a Resolução 04/2020. Publicada no Diário Oficial em 30 de julho de 2024, entrou em vigor 30 dias depois. Se o seu material de referência ainda fala em "cadastrar no e-Psi", está desatualizado.

Para a decisão de plataforma, quatro artigos importam:

  • Art. 3º — a profissional é responsável pelos dados e informações sensíveis e pelas implicações ao sigilo, à privacidade e à autonomia de quem atende. O servidor pode ser de terceiro; a responsabilidade não é.
  • Art. 4º — antes de atender a distância, você avalia a viabilidade considerando confidencialidade, as suas competências tecnológicas e as do paciente, a compatibilidade com o serviço, a possibilidade de atender urgências e as características de quem atende (deficiência, faixa etária, diferenças culturais).
  • Art. 5º — em risco de morte ou à integridade, violência, violação de direitos, privação de liberdade e situações de urgência e emergência, deve-se considerar o encaminhamento presencial, e tudo precisa ser registrado.
  • Art. 7º — o contrato com o paciente, escrito ou verbal, precisa informar quais recursos tecnológicos serão utilizados para garantir o sigilo, além das características do trabalho, direitos e deveres e o foro.

Repare no que a norma não faz: ela não diz "use criptografia X" nem "prefira plataforma Y". Ela transfere para você a avaliação e cobra que ela esteja documentada. É por isso que a pergunta certa não é "qual plataforma o CFP aceita", mas "qual plataforma eu consigo justificar por escrito". Os requisitos técnicos mínimos, do equipamento ao ambiente, estão detalhados em Telepsicologia: requisitos técnicos e de privacidade; aqui o foco é a escolha entre modelos.

Três modelos de plataforma e o que cada um cobra de você

Toda ferramenta de atendimento online cai em um destes três formatos. Eles não são concorrentes diretos: resolvem problemas diferentes e cobram de formas diferentes.

1. Marketplace de terapia

Vittude, Zenklub, Psicologia Viva, Telavita, PsyMeet e similares. O paciente entra pelo site da plataforma, escolhe um profissional no catálogo, paga lá e a sessão acontece na sala de vídeo do próprio serviço. Para o psicólogo, a promessa é demanda: a plataforma investe em tráfego e em contratos corporativos, e distribui os atendimentos entre os cadastrados.

O custo aparece em três lugares. Primeiro, na remuneração: o modelo comercial envolve percentual, taxa ou valor tabelado por sessão, definido pelos termos vigentes de cada plataforma, que mudam e raramente ficam expostos na página pública. Confira o contrato antes de aceitar. Segundo, na relação clínica: o paciente é cliente da plataforma, o cadastro é dela e, se você sair, a agenda não vai junto. Terceiro, no registro: parte dos marketplaces mantém prontuário interno e você precisa saber, antes de começar, se consegue exportar o que escreveu e por quanto tempo ele fica guardado.

Os processos seletivos costumam pedir CRP ativo, experiência clínica comprovada e alinhamento a práticas baseadas em evidência. Alguns ainda listam "cadastro e-Psi vigente" como requisito, o que é um sinal de página desatualizada, não de exigência legal.

2. Ferramenta genérica de videochamada

Google Meet, Zoom, Jitsi Meet e, na prática de muita gente, WhatsApp. Você cria a sala, manda o link e conduz a sessão. É o modelo de menor custo e maior liberdade: preço, agenda, prontuário e paciente são seus.

A contrapartida é que toda a segurança depende da sua configuração. A ferramenta oferece criptografia, sala de espera e senha, mas não liga nada disso sozinha, e não sabe que a pessoa do outro lado é paciente. O contrato de tratamento de dados, o link exclusivo por sessão e o cuidado com a gravação passam a ser rotina sua.

3. Sistema de gestão com sessão integrada

Softwares de gestão de consultório que geram o link da sessão a partir da agenda, disparam o lembrete para o paciente e abrem o prontuário no mesmo lugar. O ganho é operacional: o registro da modalidade, da plataforma e do consentimento, que a Resolução 09/2024 exige, acontece no fluxo, e não numa planilha paralela. A escolha da tecnologia de vídeo por trás, própria ou integrada, continua sendo algo a verificar na documentação do fornecedor, com as mesmas perguntas do checklist adiante.

CritérioMarketplaceVideochamada genéricaGestão com sessão integrada
Quem traz o pacienteA plataformaVocêVocê
Quem define o preçoA plataforma (tabela ou faixa)VocêVocê
De quem é o cadastro do pacienteDa plataformaSeuSeu
ProntuárioInterno, exportação a confirmarFora da ferramentaIntegrado, no seu ambiente
Custo diretoPercentual ou taxa por sessãoGratuito ou assinatura da ferramentaAssinatura mensal
Configuração de segurançaFeita pela plataformaToda suaParte do sistema, parte sua
Risco de dependênciaAlto: sair zera a agendaBaixoMédio: depende da exportação de dados

Um detalhe que a tabela não mostra: os modelos se combinam. Quem começa sem pacientes pode usar o marketplace como canal de entrada enquanto constrói a própria agenda, tema que o artigo sobre como captar pacientes na psicologia aprofunda. O erro é tratar o marketplace como consultório.

Comparativo das ferramentas de videochamada

Nos modelos 2 e 3, a tecnologia de vídeo é o que sustenta a confidencialidade. As diferenças entre as ferramentas mais usadas são objetivas e estão na documentação oficial de cada uma.

FerramentaCriptografia padrãoPonta a ponta (E2EE)O que observar
Google MeetEm trânsito e em repouso, por padrão, entre o cliente e o GoogleSó via client-side encryption, disponível em edições Workspace Enterprise Plus, Frontline Plus e Education, com configuração pelo administradorNa conta gratuita, o Google consegue decifrar a mídia nos servidores dele. Para consultório individual, o caminho realista é Workspace pago pelo contrato de tratamento de dados, não pela E2EE.
ZoomEm trânsito, por padrãoDisponível em contas gratuitas e pagas, mas precisa ser ativada no portal web pelo anfitriãoCom E2EE ligada, gravação em nuvem, transcrição ao vivo, chat antes e depois da reunião e entrada por telefone ficam desabilitados. Para sessão clínica, isso é vantagem.
Jitsi MeetEm trânsitoOpcional no navegador, ativada dentro da salaCódigo aberto e sem cadastro obrigatório. A instância pública é gratuita; o nome da sala é o único segredo, então use nomes longos e únicos por sessão.
WhatsAppChamadas com E2EESim, nas chamadasO risco não é a chamada, é o entorno: conversa misturada ao uso pessoal, backup de mensagens na nuvem que só fica protegido se você ativar a criptografia do backup, sem sala de espera nem link por sessão.

Duas leituras práticas dessa tabela. A primeira: "tem criptografia" não é resposta suficiente, porque em quase toda ferramenta a criptografia padrão protege o trajeto e o provedor ainda enxerga a mídia. A segunda: a E2EE, quando existe, costuma desligar gravação e transcrição, e isso é exatamente o que uma sessão de psicoterapia precisa. Gravar sessão é exceção, exige consentimento específico e cria um dado sensível a mais para guardar.

Checklist de segurança antes da primeira sessão

O checklist vale para qualquer modelo. Em marketplace, boa parte já vem resolvida pela plataforma, e a sua tarefa é confirmar; em ferramenta própria, é configurar. Marque cada item antes de mandar o primeiro link.

Conta e ferramenta

  1. Conta profissional separada da pessoal, com e-mail exclusivo do consultório. Evita que uma lista de contatos pessoal vaze para o ambiente clínico, e simplifica o dia em que você trocar de ferramenta.
  2. Autenticação em dois fatores ativada na conta que hospeda as sessões. Senha vazada sem segundo fator é sala aberta.
  3. Criptografia confirmada na documentação, não na propaganda. Anote qual é o padrão da ferramenta e se a E2EE está ligada. Esse é o "recurso tecnológico" que o art. 7º manda informar no contrato.
  4. Contrato de tratamento de dados com o fornecedor. Você é controlador do dado do paciente; a plataforma é operadora. A LGPD trata dado de saúde como dado sensível (art. 5º, II) e exige medidas de segurança do controlador (art. 46). Ferramentas empresariais publicam o termo de processamento; a maioria das gratuitas, não.
  5. Localização e prazo de guarda dos dados que ficam na plataforma: logs de chamada, gravações, chat. Se você não sabe onde ficam nem por quanto tempo, não consegue responder ao paciente que perguntar.

Sessão

  1. Link único por paciente ou por sessão, nunca uma sala fixa reaproveitada. Sala fixa é o link que um paciente de segunda-feira pode abrir na sessão de terça.
  2. Sala de espera ou senha ligada, para você controlar quem entra e quando.
  3. Gravação desativada por padrão, e política clara: se um dia gravar, será com consentimento específico, para finalidade definida, com prazo de exclusão.
  4. Ambiente físico dos dois lados combinado: porta fechada, fone de ouvido, ninguém compartilhando a tela. A norma inclui a competência tecnológica do paciente na avaliação de viabilidade; parte dela é ele ter onde falar sem ser ouvido.
  5. Plano B para queda de conexão, acordado antes: quem liga para quem, por qual canal, em quantos minutos.

Risco e registro

  1. Endereço atualizado e contato de emergência do paciente, colhidos no início do vínculo. Em crise, o art. 5º manda considerar o encaminhamento presencial, e não dá para acionar ninguém sem saber onde a pessoa está. O protocolo para crise suicida no consultório detalha o que fazer nesse cenário.
  2. Modalidade, plataforma e consentimento registrados no prontuário, sessão a sessão, com anotação de interrupções e trocas de ferramenta. É o rastro que prova que a avaliação do art. 4º aconteceu.

Como decidir: quatro perguntas

Se a tabela e o checklist ainda deixam a escolha em aberto, estas perguntas costumam resolver.

  • Você tem demanda própria? Sem pacientes, o marketplace compra tempo enquanto a sua captação amadurece. Com agenda formada, o percentual da plataforma vira custo sem contrapartida.
  • Quem vai ser dono do cadastro daqui a dois anos? Se a resposta é "a plataforma", planeje a saída desde o primeiro dia: paciente que confia em você e não no catálogo pode migrar, mas isso exige que você tenha uma agenda para onde ir.
  • Onde o prontuário vai morar? Prontuário espalhado entre o sistema do marketplace, o bloco de notas e o e-mail é o cenário que mais complica o prazo de guarda e a resposta a uma solicitação do paciente. Um único lugar, seu, é a regra de ouro.
  • Você consegue explicar a segurança em duas frases? Se não consegue descrever para o paciente qual ferramenta usa e por que ela protege o sigilo, ainda não terminou de escolher.

A combinação mais comum entre profissionais com agenda estável é a terceira coluna da tabela: ferramenta de vídeo empresarial, com contrato de dados, ligada a um sistema de gestão que cuida do link, do lembrete e do prontuário. Quem está começando costuma passar pelo marketplace e migrar quando a demanda própria sustenta o consultório. Os dois caminhos cumprem a Resolução 09/2024, desde que o contrato terapêutico informe a tecnologia e o prontuário registre a modalidade; o artigo Psicologia online: regulamentação e como funciona mostra como estruturar esse registro.

Link de sessão, consentimento e prontuário no mesmo fluxo

O Agiliza Terapias gera o link da sessão a partir da agenda, envia o lembrete ao paciente, guarda o consentimento para a modalidade online e registra a plataforma usada no prontuário, com os controles de acesso e a trilha de auditoria que a LGPD pede de quem trata dado de saúde.

Ver segurança e LGPD do Agiliza Terapias

Perguntas frequentes

O CFP homologa ou recomenda alguma plataforma para terapia online?

Não. A Resolução CFP nº 09/2024 não lista plataformas aprovadas. Ela atribui ao profissional a responsabilidade de avaliar se a tecnologia garante confidencialidade e exige que o contrato com o paciente informe quais recursos tecnológicos protegem o sigilo. A escolha é sua, e a justificativa também.

Ainda é preciso ter cadastro no e-Psi para atender online?

Não. A Resolução 09/2024, em vigor desde agosto de 2024, revogou a Resolução 11/2018, que criou o e-Psi, e a Resolução 04/2020. O que permanece obrigatório é o registro ativo no CRP, a avaliação de viabilidade do atendimento a distância caso a caso e o registro de tudo, inclusive da tecnologia empregada.

Posso atender pacientes pelo WhatsApp?

A norma não proíbe um aplicativo específico. O problema do WhatsApp está fora da chamada: histórico misturado à vida pessoal, backup em nuvem que só fica protegido se você ativar a criptografia do backup, e ausência de sala de espera e de link por sessão. Para a sessão, uma ferramenta com sala privada; para a agenda, um canal separado com registro.

Marketplace de terapia ou plataforma própria: qual é mais seguro?

Depende do que você chama de segurança. O marketplace resolve vídeo e pagamento, mas o paciente é da plataforma, o preço é tabelado e o prontuário pode ficar preso lá. A plataforma própria dá controle sobre dados, preço e relação clínica, mas transfere para você a configuração e o registro. Os dois cumprem a Resolução 09/2024, e o checklist vale para ambos.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a leitura da Resolução CFP nº 09/2024 nem a orientação do seu CRP. Recursos de segurança, planos e termos comerciais das plataformas citadas mudam com frequência — confirme na documentação oficial de cada uma antes de decidir.

Falar no WhatsApp