Montar um consultório de psicologia envolve mais burocracia do que a maioria dos recém-formados espera — e menos do que a maioria teme. O processo tem etapas definidas, prazos previsíveis e custos que variam principalmente por cidade e especialidade. Este guia percorre cada uma dessas etapas com dados reais, sem atalhos que vão gerar problema lá na frente.

A ordem importa. Algumas decisões, como CNPJ ou MEI, afetam diretamente quanto você vai pagar de imposto nos primeiros anos. Outras, como a escolha do espaço físico, determinam se o CFP vai ou não autorizar o consultório. Vamos do começo.

Registro no CRP: o primeiro passo, sem exceção

Antes de atender qualquer paciente, você precisa estar registrado no Conselho Regional de Psicologia do seu estado. Exercer a profissão sem registro é infração ética e pode resultar em cassação do direito de exercício. O CRP funciona por regionais: o CRP-06 cobre São Paulo, o CRP-05 o Rio de Janeiro, e assim por diante. Cada um tem seu próprio sistema de atendimento, mas o processo é padrão em todo o país.

Para o primeiro registro, você vai precisar de diploma ou declaração de conclusão de curso (original e cópia), histórico escolar, documentos pessoais (RG, CPF, comprovante de residência) e comprovante de pagamento da anuidade. O prazo de análise varia entre 30 e 60 dias dependendo da regional. A anuidade para psicólogos pessoa física está na faixa de R$ 700 a R$ 900 por ano, dependendo do CRP. Consulte o site da sua regional para o valor atualizado.

Registro como pessoa jurídica

Se você abrir empresa, vai precisar também do registro da pessoa jurídica no CRP. Esse é um processo separado do registro individual e exige que todos os sócios psicólogos já estejam registrados como PF. Algumas regionais fazem esse registro com agilidade; outras levam de 30 a 90 dias. Planeje com folga antes de anunciar qualquer serviço da empresa.

CNPJ, MEI ou autônomo: a decisão que mais impacta seu bolso

Psicólogos podem trabalhar como autônomos (CPF, sem empresa), como MEI ou como pessoa jurídica com CNPJ numa das modalidades tributárias disponíveis. Cada formato tem vantagens e limitações concretas — não existe resposta universal.

Como autônomo, você emite recibo de autônomo, paga INSS de 20% sobre o que receber (ou 11% se contribuir pelo carnê como segurado facultativo) e inclui a renda no IR pelo Carnê-Leão. É o formato mais simples, mas o mais caro em termos de encargos totais. Funciona bem para quem está começando com poucos pacientes e quer testar o mercado antes de formalizar.

O MEI tem uma restrição importante: psicologia não está na lista de atividades permitidas para MEI. Você não pode se registrar como MEI para atender pacientes. Esse é um erro comum e vale reforçar.

A alternativa mais usada por quem atende acima de oito a dez pacientes por semana é abrir uma empresa no Simples Nacional. Para psicólogos, o mais comum é abrir uma Sociedade Simples Uniprofissional ou uma EIRELI enquadrada no Simples. No Simples Nacional, a alíquota efetiva para serviços profissionais começa em torno de 6% e sobe conforme o faturamento anual. Para quem fatura até R$ 180 mil por ano, a economia em relação ao autônomo é expressiva. Consulte um contador especializado em profissionais de saúde — esse investimento se paga rápido.

Espaço físico: o que o CFP exige de verdade

A Resolução CFP n° 008/2000 define os requisitos para consultórios de psicologia. O documento tem força normativa: consultórios que não atendem às exigências podem ser autuados pelo CRP após fiscalização ou denúncia.

Os requisitos centrais são privacidade visual e acústica, iluminação adequada (natural ou artificial, mas sem ofuscamento), ventilação, e espaço suficiente para o atendimento com dignidade. A resolução não estabelece metragem mínima em metros quadrados, mas na prática os CRPs tendem a avaliar se o espaço permite que duas pessoas conversem sentadas sem que uma terceira do lado de fora ouça o conteúdo. Salas com menos de 8 m² costumam gerar questionamentos.

Privacidade acústica na prática

Esse é o ponto onde mais consultórios falham. Paredes simples de gesso sem tratamento acústico deixam passar conversa. O mínimo funcional é uma porta sólida com vedação adequada e, se necessário, um som ambiente no corredor externo (white noise ou música). Sublocar salas em coworkings de saúde já configurados para isso resolve o problema sem obra.

Coworking de saúde vs. sala própria

Para quem está começando, alugar horas em um coworking de saúde costuma fazer mais sentido do que assinar um contrato de locação de sala fixa. Você paga pelo tempo que usa, o espaço já atende os requisitos do CFP, e não compromete capital com mobiliário e reforma antes de ter carteira de pacientes consolidada. A ressalva é que você não pode exibir o endereço como sede do consultório sem verificar as regras do espaço.

Equipamentos e materiais básicos

O consultório de psicologia tem uma das listas de equipamento mais enxutas entre as profissões de saúde. O básico funcional cabe em menos de R$ 5.000 para quem já tem o espaço.

Para o ambiente, você vai precisar de cadeiras ou poltrona e sofá confortáveis (a escolha depende da sua abordagem clínica), mesa ou escrivaninha, iluminação regulável, e algum tipo de isolamento acústico. Para registros e gestão, um computador ou tablet com acesso à internet e um sistema de prontuário eletrônico. Para testes psicológicos, os instrumentos variam por especialidade e só podem ser adquiridos por psicólogos registrados, diretamente de distribuidores credenciados.

  • Cadeiras ou conjunto sofá/poltrona para atendimento
  • Mesa e cadeira de trabalho
  • Computador ou tablet
  • Impressora (para documentos e laudos, quando necessário)
  • Caixinha de som ou dispositivo para white noise externo
  • Materiais de papelaria para crianças (se for atender esse público)
  • Testes psicológicos conforme sua área de atuação

Como definir o valor da sua sessão

Não existe tabela obrigatória para psicólogos que atendem de forma particular. O CFP não fixa honorários mínimos. O preço é definido pelo mercado local, pela especialidade e pelo perfil do público que você quer atender.

A referência mais usada pelo mercado é a tabela do CFP de honorários orientativos, que em 2024 indicava valores entre R$ 150 e R$ 350 por sessão individual de 50 minutos para atendimento particular, com variação significativa por estado. No interior de estados menores, valores abaixo de R$ 150 são comuns. Em capitais como São Paulo, Rio e Brasília, especialistas com pós-graduação e anos de experiência chegam a R$ 400-500 por sessão.

As variáveis que mais pesam: cidade e bairro (o mercado local dita o teto), especialidade, seu nível de formação, e se você aceita convênio. Convênios pagam em média de R$ 40 a R$ 80 por sessão dependendo da operadora — menos da metade do particular. Muitos psicólogos trabalham com uma mistura: maioria particular, alguns slots para convênio ou atendimento social.

Sistema de gestão e prontuário: por que papel trava o crescimento

Ao atender os primeiros pacientes, a planilha e o caderno parecem suficientes. O problema aparece quando você chega a 20, 30 pacientes simultâneos: agenda com conflitos, prontuários físicos que não podem ser acessados remotamente, financeiro que você recalcula toda semana e ainda assim erra, e zero rastreabilidade em caso de auditoria ou processo ético.

Além da ineficiência operacional, existe um problema legal. A Resolução CFP n° 001/2009 e as normas de telemedicina do CFP (Resolução n° 011/2018 e atualizações posteriores) exigem que prontuários sejam mantidos por no mínimo 5 anos após o encerramento do atendimento — ou 20 anos quando envolve menores de idade contando a partir da maioridade. Manter isso em papel ou planilha sem backup estruturado é risco real.

Um sistema de gestão específico para psicólogos resolve agenda (sem conflitos, com confirmação automática), prontuário eletrônico com histórico de sessões, controle financeiro com recorrência e inadimplência, e armazenamento seguro com backup. O custo de um sistema desse tipo, como o AgilizaPSI, está na faixa de R$ 97 a R$ 147 por mês — o equivalente a uma sessão particular.

LGPD no consultório: o que você precisa fazer de verdade

A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) se aplica ao consultório de psicologia. Prontuários, gravações de sessão e qualquer dado de saúde do paciente são classificados como dados sensíveis, com proteção reforçada.

Na prática, você precisa de três coisas: um termo de consentimento informado que o paciente assina antes de começar o atendimento, uma política clara sobre gravação de sessões com consentimento explícito para esse fim específico, e armazenamento seguro dos dados. Gravar uma sessão sem consentimento explícito do paciente não é apenas violação de LGPD — é potencial infração ética.

O sigilo profissional do psicólogo, regulado pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP n° 010/2005), é mais restritivo que a LGPD em vários pontos. Onde houver conflito, prevalece a norma mais protetiva para o paciente. Em caso de dúvida sobre compartilhamento de informações com planos de saúde, laudos judiciais ou pedidos de terceiros, consulte o CRP da sua regional antes de agir.

Divulgação e captação de pacientes: o que o CFP permite

A Resolução CFP n° 006/2019 regula a publicidade em psicologia. É mais permissiva do que as gerações anteriores de psicólogos aprenderam, mas ainda tem restrições importantes.

Você pode divulgar seus serviços em redes sociais, ter site profissional, fazer conteúdo educativo sobre saúde mental e especificar suas áreas de atuação. O que a resolução proíbe é prometer resultados terapêuticos ("livre-se da ansiedade em 8 sessões"), usar depoimentos de pacientes identificados, utilizar o título de especialista sem o devido registro no CFP, e fazer propaganda comparativa com outros profissionais.

Conteúdo psicoeducativo é a estratégia que mais funciona dentro das regras: vídeos curtos sobre temas de saúde mental, textos que explicam abordagens terapêuticas, publicações que desmistificam o processo de psicoterapia. Instagram e YouTube têm sido os canais mais produtivos para psicólogos com consultório particular — não pelo volume de seguidores, mas pela qualidade dos pacientes que chegam já informados sobre o trabalho do profissional.

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Perguntas frequentes

Psicólogo pode ser MEI?

Não. A atividade de psicólogo não consta na lista de ocupações permitidas para o MEI. Para formalizar como pessoa jurídica, a opção é abrir uma empresa (Empresário Individual, EIRELI ou Sociedade Simples) no Simples Nacional.

Qual o tamanho mínimo de sala para consultório de psicologia?

A Resolução CFP n° 008/2000 não define metragem mínima. O requisito é privacidade visual e acústica, iluminação e ventilação adequadas. Na prática, salas abaixo de 8 m² costumam ter dificuldade na fiscalização do CRP.

É obrigatório ter CNPJ para abrir consultório?

Não. Psicólogos podem atender como autônomos, usando CPF. O CNPJ é uma escolha tributária. Para quem tem mais de dez pacientes por semana, o Simples Nacional costuma resultar em menor carga tributária total.

Psicólogo pode fazer propaganda nas redes sociais?

Sim, dentro das regras da Resolução CFP n° 006/2019. É permitido ter site, perfil em redes sociais e produzir conteúdo psicoeducativo. Não é permitido usar depoimentos de pacientes identificados ou prometer resultados terapêuticos específicos.

Veja também: Prontuário eletrônico para psicólogos · LGPD para psicólogos · Quanto cobrar por sessão de psicologia