Prática Clínica

Como Fazer Encaminhamento de Paciente: Quando Indicar e Como Comunicar

Publicado em 3 de julho de 2026 · 8 min de leitura

Em síntese: encaminhar um paciente não é fracasso clínico. É parte do cuidado. O erro não está em encaminhar, está em encaminhar mal: sem comunicar os motivos com clareza, sem indicar um destino concreto, ou sem registrar no prontuário o que foi decidido e por quê.

Quando o encaminhamento é necessário

Há situações em que encaminhar é a decisão clínica mais responsável que você pode tomar. Reconhecê-las antes é mais fácil do que reconhecê-las no meio de um processo já longo.

SituaçãoEncaminhamento indicado
Demanda que excede sua formação ou especialidadeColega com a especialização adequada
Sintomas que sugerem necessidade de avaliação médicaPsiquiatra, neurologista ou clínico geral
Transtorno alimentar com comprometimento clínicoNutricionista e equipe multidisciplinar
Dependência química em fase ativaCAPS-AD ou clínica especializada
Risco imediato de autolesão ou suicídioUPA, CAPS ou internação psiquiátrica
Conflito de interesses com o pacienteOutro profissional sem esse conflito
Ausência de progresso clínico sustentadoSupervisor, ou segundo opinião de colega

Como comunicar o encaminhamento ao paciente

A comunicação é onde o encaminhamento falha com mais frequência. Pacientes interpretam mal quando não há clareza suficiente. Alguns entendem que estão sendo "despedidos". Outros entendem que o problema é mais grave do que você está dizendo.

Algumas diretrizes concretas:

  • Faça a conversa em sessão, não por mensagem
  • Explique o motivo clínico em linguagem acessível, sem jargão
  • Deixe claro se o encaminhamento é complementar (você continua) ou substitutivo (outro profissional assume)
  • Indique um nome ou serviço específico, não só a especialidade
  • Pergunte como o paciente está recebendo a notícia e deixe espaço para a reação
  • Combine o próximo passo antes de terminar a sessão

O paciente que sai da sessão sem saber exatamente para onde vai nem o que fazer tende a não seguir o encaminhamento. Contato, endereço e, se possível, o nome do profissional aumentam muito a adesão.

Encaminhamento complementar: quando você continua

Na maioria dos casos, o encaminhamento não encerra o processo terapêutico. O psicólogo que encaminha para psiquiatria continua com a psicoterapia. O que encaminha para nutricionista mantém o trabalho com a relação do paciente com a comida. O que aciona o CAPS como suporte continua sendo o vínculo principal.

Nesses casos, a comunicação entre profissionais com consentimento do paciente melhora o cuidado. Não é incomum que o psicólogo envie um breve resumo ao psiquiatra ou receba uma carta de encaminhamento do clínico geral. O paciente autoriza isso no TCLE ou por escrito na sessão.

Quando redigir relatório de encaminhamento

O relatório de encaminhamento não é obrigatório em todas as situações, mas é boa prática sempre que o paciente muda de profissional ou ingressa num serviço que precisará do histórico.

O documento deve ser conciso: identificação do paciente, período de atendimento, motivo de busca original, resumo da evolução clínica e motivo do encaminhamento. Não é um laudo. Não precisa de instrumentos ou resultados de testes. Uma página costuma ser suficiente.

Guarde uma cópia no prontuário. Se o encaminhamento foi para urgência (CAPS, UPA, hospital), esse registro pode ser solicitado judicialmente.

O que registrar no prontuário

Todo encaminhamento precisa estar no prontuário. O registro mínimo inclui:

  • Data da decisão clínica de encaminhar
  • Motivo técnico do encaminhamento
  • Para quem foi encaminhado (nome, especialidade ou serviço)
  • O que foi comunicado ao paciente e a reação dele
  • Se houve emissão de relatório de encaminhamento
  • Se o processo terapêutico continua ou foi encerrado

Esse registro protege o profissional em caso de questionamento posterior e garante continuidade do cuidado se outro profissional precisar do histórico. Veja como estruturar o prontuário em como escrever o prontuário psicológico.

Perguntas frequentes

Encaminhar paciente quebra o vínculo terapêutico?
Não necessariamente. Um encaminhamento bem conduzido pode fortalecer a confiança: demonstra que o psicólogo prioriza o bem do paciente acima de manter a relação comercial. A forma de comunicar importa mais do que o ato em si. Pacientes que foram encaminhados com cuidado tendem a voltar quando a demanda muda.
O psicólogo precisa redigir um relatório de encaminhamento?
Depende do destino. Para outro psicólogo ou profissional de saúde, um breve relatório com histórico resumido e motivo da indicação ajuda na continuidade do cuidado. Para serviços de urgência, uma carta de encaminhamento com os dados clínicos principais pode ser necessária.
Posso encaminhar e manter o acompanhamento concomitante?
Sim. Em muitos casos o encaminhamento é complementar, não substitutivo. Um psicólogo que encaminha para psiquiatria continua com a psicoterapia. O que define é a necessidade clínica do paciente, não a exclusividade do atendimento.
O que registrar no prontuário quando há encaminhamento?
Registre a data, o motivo clínico, para quem foi encaminhado, o que foi comunicado ao paciente e como o paciente reagiu. Se houve emissão de relatório, inclua uma cópia no prontuário. Esse registro protege o profissional e garante continuidade do cuidado.

Registre encaminhamentos no histórico do paciente

O prontuário do AgilizaPSI permite registrar decisões clínicas, encaminhamentos e relatórios no histórico de cada paciente, com rastreabilidade completa.

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