O que o repasse compra: por que o percentual sozinho não diz nada
Repasse não é salário nem desconto. É a divisão do valor da sessão entre quem atende e quem sustenta a estrutura que tornou aquele atendimento possível. A pergunta certa, portanto, nunca é “esse percentual é bom?”, e sim “o que vem junto com ele?”.
Dois itens pesam muito mais que os outros: quem traz o paciente e quem assume o risco de não receber. Sala, café e recepção são custos previsíveis e relativamente baratos. Captação é cara, incerta e contínua. Uma clínica que enche sua agenda está entregando o insumo mais caro do negócio, e é isso que justifica ficar com a maior fatia.
| O que a clínica entrega | Peso na negociação | Por quê |
|---|---|---|
| Captação de pacientes | Alto | É o custo mais alto e mais incerto da operação; substitui seu investimento em marketing |
| Risco de inadimplência assumido | Alto | Você recebe pelo atendido mesmo quando o paciente atrasa ou não paga |
| Recepção e secretaria | Médio | Confirma, remarca, cobra e libera seu tempo administrativo |
| Sistema de agenda e prontuário | Médio | Custo fixo que você teria de bancar sozinho |
| Sala equipada e material | Médio | Elimina aluguel, conta de luz, mobília e manutenção |
| Apenas a sala em horário fixo | Baixo | Aproxima-se de uma sublocação, e o repasse deveria refletir isso |
Olhe essa tabela antes de olhar a proposta. Uma clínica que entrega só a sala e pede 40% não está negociando repasse: está cobrando um aluguel caro com outro nome.
Faixas praticadas e o que sustenta cada uma
As faixas abaixo são as relatadas com mais frequência por psicólogos e clínicas no Brasil. Não são tabela oficial nem piso profissional — variam bastante por cidade, especialidade, porte da clínica e volume de agenda. Use-as como referência para localizar uma proposta, nunca como argumento de autoridade.
| Fica com o psicólogo | Arranjo típico | Quando faz sentido |
|---|---|---|
| 40% a 50% | Clínica capta, faz marketing, tem recepção, sistema, sala e assume inadimplência | Início de carreira, mudança de cidade, ou quem não quer operar captação |
| 50% a 60% | Estrutura completa, mas captação dividida entre clínica e profissional | Arranjo mais comum em clínica de médio porte |
| 60% a 70% | Sala, recepção e sistema; o psicólogo traz a maior parte dos próprios pacientes | Profissional com carteira formada que quer estrutura, não captação |
| 70% a 85% | Uso de estrutura com poucos serviços agregados; o psicólogo traz todos os pacientes | Fronteira com a sublocação; compare com o custo de alugar sua própria sala |
| Valor fixo mensal | Aluguel de horário, sem percentual sobre sessão | Agenda cheia e previsível: acima de certo volume, o fixo sai mais barato |
Repare que a última linha muda a natureza do acordo. Percentual é sociedade no risco: em um mês fraco, a clínica ganha menos junto com você. Aluguel fixo é custo seu, independentemente de quantos pacientes apareceram. Quem tem agenda cheia e estável costuma ganhar migrando para o fixo; quem está construindo carteira quase sempre perde. Do outro lado do balcão, os modelos de cálculo e a operação do rateio estão detalhados em como gerenciar uma clínica com múltiplos terapeutas.
A conta que quase ninguém faz: quanto sobra por hora
Percentual alto com agenda vazia perde para percentual baixo com agenda cheia, e é por isso que comparar propostas pela porcentagem leva a decisões ruins. Compare pelo líquido por hora disponibilizada.
Considere duas propostas para uma sessão de R$ 200 e 20 horas semanais reservadas à clínica:
| Proposta A — 70% | Proposta B — 50% | |
|---|---|---|
| Quem capta o paciente | Você | A clínica |
| Ocupação média da agenda | 8 sessões/semana (40%) | 18 sessões/semana (90%) |
| Valor por sessão para você | R$ 140 | R$ 100 |
| Receita semanal | R$ 1.120 | R$ 1.800 |
| Líquido por hora reservada | R$ 56 | R$ 90 |
| Seu gasto com captação | Tempo e verba de marketing | Zero |
A proposta com percentual menor paga 60% mais por hora reservada, e ainda economiza o custo invisível de captar. Isso não torna a proposta B melhor em qualquer cenário: se a sua carteira já está formada e você levaria 18 pacientes para dentro da clínica, o cálculo se inverte por completo.
A regra prática: peça a taxa de ocupação média dos profissionais atuais antes de aceitar qualquer percentual. Uma clínica que não sabe responder isso não tem controle da própria operação, e o percentual oferecido é chute.
Faça a conta com o cenário pessimista. Projete o líquido considerando 60% da ocupação prometida. Se nesse cenário o valor por hora ainda for aceitável, a proposta se sustenta. Se só fecha na ocupação máxima, você está assumindo o risco comercial da clínica sem participar do lucro dela.
Repasse de convênio: outra conta e outro risco
Quando o atendimento vem por plano de saúde, o repasse muda de natureza, e é aqui que mora a maior parte das brigas. Três diferenças pesam:
- O valor é tabelado e baixo. O convênio paga o que a tabela dele determina, não o que a clínica cobraria de um particular. Aplicar sobre esse valor o mesmo percentual do particular costuma resultar em algo insustentável por hora trabalhada.
- O pagamento demora. Prazos de 30, 60 e até 90 dias são comuns. Se o contrato não disser quando o repasse acontece, você pode atender em março e receber em junho.
- Existe glosa. O convênio pode recusar o pagamento de atendimentos já realizados por questões cadastrais ou documentais. Alguém vai absorver esse prejuízo, e o contrato precisa dizer quem.
A cláusula que resolve os três é a mesma: o repasse incide sobre o valor efetivamente recebido pela clínica, e é pago em prazo definido contado a partir desse recebimento. Não sobre o valor faturado, não sobre o valor de tabela, não “quando o convênio pagar” sem prazo. Se a clínica quiser antecipar o repasse antes de receber, ótimo — mas isso é uma liberalidade dela, e deve constar como tal.
Antes de aceitar volume por convênio, vale entender a lógica inteira desse tipo de credenciamento em planos de saúde para psicólogos.
A linha ética: contraprestação é legítima, comissão por encaminhamento não
Existe um limite que nenhuma negociação pode cruzar, e ele é explícito. O Código de Ética Profissional do Psicólogo, aprovado pela Resolução CFP nº 010/2005, veda no art. 2º, alínea “p”, “receber, pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de serviços”.
Isso não proíbe o repasse. Proíbe pagar pelo ato de indicar. A diferença está na contrapartida:
| Arranjo | Situação |
|---|---|
| Clínica retém 40% e fornece sala, recepção, sistema, marketing e assume inadimplência | Contraprestação por serviços — legítimo |
| Colega repassa pacientes que não pode atender e pede uma porcentagem por isso | Comissão por encaminhamento — vedado |
| Plataforma cobra taxa por agendamento, pagamento e suporte prestados | Serviço efetivamente prestado — legítimo |
| Profissional de outra área cobra por “indicar seu nome” a pacientes | Comissão por encaminhamento — vedado |
O teste é direto: se a estrutura sumisse, o valor ainda seria devido? Se a resposta for sim, o que está sendo pago é a indicação, e a vedação alcança tanto quem paga quanto quem recebe.
Outros três dispositivos completam o quadro e costumam ser esquecidos na hora de assinar:
- Art. 2º, alínea “o” — é vedado receber vantagens além dos honorários contratados e intermediar transações financeiras. Bônus por metas de sessões, por exemplo, merece leitura cuidadosa: pressão por volume colide com o interesse clínico.
- Art. 2º, alínea “l” — é vedado desviar para serviço particular pessoas atendidas por instituição com a qual o psicólogo mantenha vínculo. Levar o paciente da clínica para o seu consultório é infração, não esperteza comercial.
- Art. 4º, alínea “c” — o psicólogo deve assegurar a qualidade dos serviços independentemente do valor acordado. O paciente que gera o repasse mais baixo recebe exatamente o mesmo cuidado que os outros.
Seis pontos que valem mais que o percentual
Em uma negociação bem conduzida, o percentual é o quinto item mais importante. Estes vêm antes:
- Base de cálculo. Sobre valor recebido, nunca sobre agendado ou faturado. Uma palavra nessa cláusula decide quem absorve falta, inadimplência e glosa.
- Prazo de repasse. Data fixa no mês, contada a partir do recebimento pela clínica. Sem data, o repasse vira fluxo de caixa da clínica.
- Quem assume falta e cancelamento. Se o paciente falta e a política da clínica cobra a sessão, você participa desse valor? A resposta precisa estar escrita.
- Reajuste. Quando o preço da sessão sobe, o percentual acompanha automaticamente. Defina periodicidade e critério, ou você ficará dois anos no mesmo valor.
- Guarda do prontuário e saída. Ao encerrar a parceria, quem guarda os registros? A Resolução CFP nº 001/2009 fixa guarda mínima de cinco anos no art. 4º, e essa obrigação não desaparece com a saída. Defina antes quem fica com o quê e como o paciente é comunicado.
- Transparência do extrato. Você precisa conseguir conferir sessão a sessão o que foi cobrado, o que foi recebido e o que foi repassado. Repasse sem extrato conferível é confiança, não acordo.
Checklist do contrato antes de assinar
Os modelos de vínculo — CLT, PJ e parceria — têm implicações trabalhistas e fiscais distintas, detalhadas em como contratar psicólogos para clínica. Seja qual for o escolhido, o contrato precisa responder:
- Percentual ou valor fixo, e sobre qual base exata.
- Prazo e data do repasse, contados do recebimento.
- Quem emite nota fiscal, para quem e em que valor.
- O que acontece com faltas, cancelamentos e inadimplência.
- Regra de reajuste e periodicidade de revisão.
- Prazo de aviso prévio para encerrar a parceria de ambos os lados.
- Destino dos prontuários e forma de comunicar os pacientes na saída.
- Se há e o que significa qualquer cláusula de exclusividade ou não concorrência.
Acordo verbal com colega de confiança é o formato que mais gera conflito, porque ninguém discorda no primeiro mês — discorda-se no décimo quarto, quando a memória das partes já divergiu.
Repasse conferível, sem planilha paralela
O AgilizaPSI registra cada sessão com o valor cobrado, o valor recebido e a data do pagamento, e fecha o repasse por profissional sobre o que entrou de fato — não sobre o que foi agendado. O extrato sai pronto para conferência dos dois lados, e o histórico fica junto do prontuário e da agenda.
Ver o módulo financeiroQuatro erros que corroem o repasse com o tempo
- Calcular sobre sessões agendadas. Parece detalhe e é o erro mais caro: transfere o risco de falta para quem não tem controle sobre ele.
- Repassar antes de receber. A clínica que antecipa por gentileza vira credora do próprio parceiro quando o paciente não paga, e a conversa que se segue costuma encerrar a parceria.
- Nunca revisar. Percentual definido no primeiro mês, quando você não tinha carteira, continua valendo três anos depois, quando você leva metade dos pacientes da casa. Revisão anual deveria ser cláusula, não favor.
- Misturar amizade e contrato. Contrato escrito não desconfia de ninguém: protege a relação de uma divergência de memória sobre o que foi combinado.
Repasse bem desenhado é aquele em que os dois lados conseguem prever, no início do mês, quanto vão receber e quando. Se alguma das partes precisa perguntar, o acordo ainda não está pronto.
Perguntas frequentes
Qual é o percentual de repasse mais comum em clínica de psicologia?
Não existe percentual oficial nem tabela obrigatória — o que circula são faixas relatadas no mercado, que variam por cidade, especialidade e modelo de operação. Quanto mais a clínica entrega em captação, recepção, sistema e estrutura, menor tende a ser a fatia do psicólogo. Comparar percentuais isolados leva a decisões ruins: 70% de uma agenda vazia rende menos que 50% de uma agenda cheia. O número que importa é quanto sobra por hora efetivamente reservada.
O repasse é calculado sobre o valor da sessão ou sobre o que a clínica recebeu?
Sobre o valor efetivamente recebido, nunca sobre o agendado ou o faturado. Calcular sobre agendado transfere o risco de faltas para a clínica; calcular sobre faturado e ainda não pago transfere para o psicólogo o risco de inadimplência e de glosa do convênio. Essa é a cláusula mais importante do acordo e precisa estar escrita com essas palavras, junto do prazo entre o recebimento e o repasse.
A clínica pode cobrar um percentual por encaminhar pacientes para mim?
Não. O art. 2º, alínea “p”, do Código de Ética veda receber ou pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de serviços. O que separa repasse legítimo de comissão vedada é a contrapartida: se o valor retido remunera sala, recepção, sistema e marketing efetivamente prestados, é contraprestação; se remunera apenas o ato de indicar um nome, é comissão — e a vedação alcança tanto quem paga quanto quem recebe.
Quem emite a nota fiscal quando atendo dentro de uma clínica?
Depende do modelo, e a definição precisa estar no contrato antes da primeira sessão. Se a clínica contrata e fatura o atendimento, ela emite a nota ao paciente e você emite nota contra a clínica pelo repasse. Se você apenas usa a estrutura, emite a nota diretamente ao paciente e a clínica emite nota contra você pelos serviços de estrutura. Acertar isso depois do primeiro pagamento costuma gerar retrabalho fiscal — confirme com contador antes de assinar.
As faixas de percentual citadas são referências de mercado relatadas por profissionais e clínicas, não valores oficiais, piso profissional ou recomendação do Conselho. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui assessoria contábil e jurídica individualizada nem orientação do seu Conselho Regional de Psicologia — confirme o texto vigente das resoluções no site do CFP antes de fechar qualquer acordo.