Gestão de Clínica

Repasse de Honorários em Clínica: Percentuais Praticados e Como Negociar

Por AgilizaPSI · Setembro 2026 · 11 min de leitura

“A clínica oferece 60%. É justo?” É a pergunta que mais aparece em grupo de psicólogo, e é uma pergunta mal formulada. Sessenta por cento de quê, recebido quando, com qual agenda por trás e assumindo qual risco? Sem essas quatro respostas, o percentual é só um número solto.

Não existe tabela oficial de repasse. O que existe são faixas praticadas no mercado, uma lógica de contrapartida que explica por que elas variam tanto, e uma conta simples que quase ninguém faz antes de assinar: quanto sobra por hora efetivamente trabalhada.

Este artigo mostra as faixas e o que sustenta cada uma, ensina a conta do líquido por hora, trata do repasse de convênio — que tem risco próprio — e marca a linha que separa repasse legítimo de comissão por encaminhamento, que o Código de Ética veda de forma expressa.

O que o repasse compra: por que o percentual sozinho não diz nada

Repasse não é salário nem desconto. É a divisão do valor da sessão entre quem atende e quem sustenta a estrutura que tornou aquele atendimento possível. A pergunta certa, portanto, nunca é “esse percentual é bom?”, e sim “o que vem junto com ele?”.

Dois itens pesam muito mais que os outros: quem traz o paciente e quem assume o risco de não receber. Sala, café e recepção são custos previsíveis e relativamente baratos. Captação é cara, incerta e contínua. Uma clínica que enche sua agenda está entregando o insumo mais caro do negócio, e é isso que justifica ficar com a maior fatia.

O que a clínica entregaPeso na negociaçãoPor quê
Captação de pacientesAltoÉ o custo mais alto e mais incerto da operação; substitui seu investimento em marketing
Risco de inadimplência assumidoAltoVocê recebe pelo atendido mesmo quando o paciente atrasa ou não paga
Recepção e secretariaMédioConfirma, remarca, cobra e libera seu tempo administrativo
Sistema de agenda e prontuárioMédioCusto fixo que você teria de bancar sozinho
Sala equipada e materialMédioElimina aluguel, conta de luz, mobília e manutenção
Apenas a sala em horário fixoBaixoAproxima-se de uma sublocação, e o repasse deveria refletir isso

Olhe essa tabela antes de olhar a proposta. Uma clínica que entrega só a sala e pede 40% não está negociando repasse: está cobrando um aluguel caro com outro nome.

Faixas praticadas e o que sustenta cada uma

As faixas abaixo são as relatadas com mais frequência por psicólogos e clínicas no Brasil. Não são tabela oficial nem piso profissional — variam bastante por cidade, especialidade, porte da clínica e volume de agenda. Use-as como referência para localizar uma proposta, nunca como argumento de autoridade.

Fica com o psicólogoArranjo típicoQuando faz sentido
40% a 50%Clínica capta, faz marketing, tem recepção, sistema, sala e assume inadimplênciaInício de carreira, mudança de cidade, ou quem não quer operar captação
50% a 60%Estrutura completa, mas captação dividida entre clínica e profissionalArranjo mais comum em clínica de médio porte
60% a 70%Sala, recepção e sistema; o psicólogo traz a maior parte dos próprios pacientesProfissional com carteira formada que quer estrutura, não captação
70% a 85%Uso de estrutura com poucos serviços agregados; o psicólogo traz todos os pacientesFronteira com a sublocação; compare com o custo de alugar sua própria sala
Valor fixo mensalAluguel de horário, sem percentual sobre sessãoAgenda cheia e previsível: acima de certo volume, o fixo sai mais barato

Repare que a última linha muda a natureza do acordo. Percentual é sociedade no risco: em um mês fraco, a clínica ganha menos junto com você. Aluguel fixo é custo seu, independentemente de quantos pacientes apareceram. Quem tem agenda cheia e estável costuma ganhar migrando para o fixo; quem está construindo carteira quase sempre perde. Do outro lado do balcão, os modelos de cálculo e a operação do rateio estão detalhados em como gerenciar uma clínica com múltiplos terapeutas.

A conta que quase ninguém faz: quanto sobra por hora

Percentual alto com agenda vazia perde para percentual baixo com agenda cheia, e é por isso que comparar propostas pela porcentagem leva a decisões ruins. Compare pelo líquido por hora disponibilizada.

Considere duas propostas para uma sessão de R$ 200 e 20 horas semanais reservadas à clínica:

 Proposta A — 70%Proposta B — 50%
Quem capta o pacienteVocêA clínica
Ocupação média da agenda8 sessões/semana (40%)18 sessões/semana (90%)
Valor por sessão para vocêR$ 140R$ 100
Receita semanalR$ 1.120R$ 1.800
Líquido por hora reservadaR$ 56R$ 90
Seu gasto com captaçãoTempo e verba de marketingZero

A proposta com percentual menor paga 60% mais por hora reservada, e ainda economiza o custo invisível de captar. Isso não torna a proposta B melhor em qualquer cenário: se a sua carteira já está formada e você levaria 18 pacientes para dentro da clínica, o cálculo se inverte por completo.

A regra prática: peça a taxa de ocupação média dos profissionais atuais antes de aceitar qualquer percentual. Uma clínica que não sabe responder isso não tem controle da própria operação, e o percentual oferecido é chute.

Faça a conta com o cenário pessimista. Projete o líquido considerando 60% da ocupação prometida. Se nesse cenário o valor por hora ainda for aceitável, a proposta se sustenta. Se só fecha na ocupação máxima, você está assumindo o risco comercial da clínica sem participar do lucro dela.

Repasse de convênio: outra conta e outro risco

Quando o atendimento vem por plano de saúde, o repasse muda de natureza, e é aqui que mora a maior parte das brigas. Três diferenças pesam:

  • O valor é tabelado e baixo. O convênio paga o que a tabela dele determina, não o que a clínica cobraria de um particular. Aplicar sobre esse valor o mesmo percentual do particular costuma resultar em algo insustentável por hora trabalhada.
  • O pagamento demora. Prazos de 30, 60 e até 90 dias são comuns. Se o contrato não disser quando o repasse acontece, você pode atender em março e receber em junho.
  • Existe glosa. O convênio pode recusar o pagamento de atendimentos já realizados por questões cadastrais ou documentais. Alguém vai absorver esse prejuízo, e o contrato precisa dizer quem.

A cláusula que resolve os três é a mesma: o repasse incide sobre o valor efetivamente recebido pela clínica, e é pago em prazo definido contado a partir desse recebimento. Não sobre o valor faturado, não sobre o valor de tabela, não “quando o convênio pagar” sem prazo. Se a clínica quiser antecipar o repasse antes de receber, ótimo — mas isso é uma liberalidade dela, e deve constar como tal.

Antes de aceitar volume por convênio, vale entender a lógica inteira desse tipo de credenciamento em planos de saúde para psicólogos.

A linha ética: contraprestação é legítima, comissão por encaminhamento não

Existe um limite que nenhuma negociação pode cruzar, e ele é explícito. O Código de Ética Profissional do Psicólogo, aprovado pela Resolução CFP nº 010/2005, veda no art. 2º, alínea “p”, “receber, pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de serviços”.

Isso não proíbe o repasse. Proíbe pagar pelo ato de indicar. A diferença está na contrapartida:

ArranjoSituação
Clínica retém 40% e fornece sala, recepção, sistema, marketing e assume inadimplênciaContraprestação por serviços — legítimo
Colega repassa pacientes que não pode atender e pede uma porcentagem por issoComissão por encaminhamento — vedado
Plataforma cobra taxa por agendamento, pagamento e suporte prestadosServiço efetivamente prestado — legítimo
Profissional de outra área cobra por “indicar seu nome” a pacientesComissão por encaminhamento — vedado

O teste é direto: se a estrutura sumisse, o valor ainda seria devido? Se a resposta for sim, o que está sendo pago é a indicação, e a vedação alcança tanto quem paga quanto quem recebe.

Outros três dispositivos completam o quadro e costumam ser esquecidos na hora de assinar:

  • Art. 2º, alínea “o” — é vedado receber vantagens além dos honorários contratados e intermediar transações financeiras. Bônus por metas de sessões, por exemplo, merece leitura cuidadosa: pressão por volume colide com o interesse clínico.
  • Art. 2º, alínea “l” — é vedado desviar para serviço particular pessoas atendidas por instituição com a qual o psicólogo mantenha vínculo. Levar o paciente da clínica para o seu consultório é infração, não esperteza comercial.
  • Art. 4º, alínea “c” — o psicólogo deve assegurar a qualidade dos serviços independentemente do valor acordado. O paciente que gera o repasse mais baixo recebe exatamente o mesmo cuidado que os outros.

Seis pontos que valem mais que o percentual

Em uma negociação bem conduzida, o percentual é o quinto item mais importante. Estes vêm antes:

  1. Base de cálculo. Sobre valor recebido, nunca sobre agendado ou faturado. Uma palavra nessa cláusula decide quem absorve falta, inadimplência e glosa.
  2. Prazo de repasse. Data fixa no mês, contada a partir do recebimento pela clínica. Sem data, o repasse vira fluxo de caixa da clínica.
  3. Quem assume falta e cancelamento. Se o paciente falta e a política da clínica cobra a sessão, você participa desse valor? A resposta precisa estar escrita.
  4. Reajuste. Quando o preço da sessão sobe, o percentual acompanha automaticamente. Defina periodicidade e critério, ou você ficará dois anos no mesmo valor.
  5. Guarda do prontuário e saída. Ao encerrar a parceria, quem guarda os registros? A Resolução CFP nº 001/2009 fixa guarda mínima de cinco anos no art. 4º, e essa obrigação não desaparece com a saída. Defina antes quem fica com o quê e como o paciente é comunicado.
  6. Transparência do extrato. Você precisa conseguir conferir sessão a sessão o que foi cobrado, o que foi recebido e o que foi repassado. Repasse sem extrato conferível é confiança, não acordo.

Checklist do contrato antes de assinar

Os modelos de vínculo — CLT, PJ e parceria — têm implicações trabalhistas e fiscais distintas, detalhadas em como contratar psicólogos para clínica. Seja qual for o escolhido, o contrato precisa responder:

  • Percentual ou valor fixo, e sobre qual base exata.
  • Prazo e data do repasse, contados do recebimento.
  • Quem emite nota fiscal, para quem e em que valor.
  • O que acontece com faltas, cancelamentos e inadimplência.
  • Regra de reajuste e periodicidade de revisão.
  • Prazo de aviso prévio para encerrar a parceria de ambos os lados.
  • Destino dos prontuários e forma de comunicar os pacientes na saída.
  • Se há e o que significa qualquer cláusula de exclusividade ou não concorrência.

Acordo verbal com colega de confiança é o formato que mais gera conflito, porque ninguém discorda no primeiro mês — discorda-se no décimo quarto, quando a memória das partes já divergiu.

Repasse conferível, sem planilha paralela

O AgilizaPSI registra cada sessão com o valor cobrado, o valor recebido e a data do pagamento, e fecha o repasse por profissional sobre o que entrou de fato — não sobre o que foi agendado. O extrato sai pronto para conferência dos dois lados, e o histórico fica junto do prontuário e da agenda.

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Quatro erros que corroem o repasse com o tempo

  1. Calcular sobre sessões agendadas. Parece detalhe e é o erro mais caro: transfere o risco de falta para quem não tem controle sobre ele.
  2. Repassar antes de receber. A clínica que antecipa por gentileza vira credora do próprio parceiro quando o paciente não paga, e a conversa que se segue costuma encerrar a parceria.
  3. Nunca revisar. Percentual definido no primeiro mês, quando você não tinha carteira, continua valendo três anos depois, quando você leva metade dos pacientes da casa. Revisão anual deveria ser cláusula, não favor.
  4. Misturar amizade e contrato. Contrato escrito não desconfia de ninguém: protege a relação de uma divergência de memória sobre o que foi combinado.

Repasse bem desenhado é aquele em que os dois lados conseguem prever, no início do mês, quanto vão receber e quando. Se alguma das partes precisa perguntar, o acordo ainda não está pronto.

Perguntas frequentes

Qual é o percentual de repasse mais comum em clínica de psicologia?

Não existe percentual oficial nem tabela obrigatória — o que circula são faixas relatadas no mercado, que variam por cidade, especialidade e modelo de operação. Quanto mais a clínica entrega em captação, recepção, sistema e estrutura, menor tende a ser a fatia do psicólogo. Comparar percentuais isolados leva a decisões ruins: 70% de uma agenda vazia rende menos que 50% de uma agenda cheia. O número que importa é quanto sobra por hora efetivamente reservada.

O repasse é calculado sobre o valor da sessão ou sobre o que a clínica recebeu?

Sobre o valor efetivamente recebido, nunca sobre o agendado ou o faturado. Calcular sobre agendado transfere o risco de faltas para a clínica; calcular sobre faturado e ainda não pago transfere para o psicólogo o risco de inadimplência e de glosa do convênio. Essa é a cláusula mais importante do acordo e precisa estar escrita com essas palavras, junto do prazo entre o recebimento e o repasse.

A clínica pode cobrar um percentual por encaminhar pacientes para mim?

Não. O art. 2º, alínea “p”, do Código de Ética veda receber ou pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de serviços. O que separa repasse legítimo de comissão vedada é a contrapartida: se o valor retido remunera sala, recepção, sistema e marketing efetivamente prestados, é contraprestação; se remunera apenas o ato de indicar um nome, é comissão — e a vedação alcança tanto quem paga quanto quem recebe.

Quem emite a nota fiscal quando atendo dentro de uma clínica?

Depende do modelo, e a definição precisa estar no contrato antes da primeira sessão. Se a clínica contrata e fatura o atendimento, ela emite a nota ao paciente e você emite nota contra a clínica pelo repasse. Se você apenas usa a estrutura, emite a nota diretamente ao paciente e a clínica emite nota contra você pelos serviços de estrutura. Acertar isso depois do primeiro pagamento costuma gerar retrabalho fiscal — confirme com contador antes de assinar.

As faixas de percentual citadas são referências de mercado relatadas por profissionais e clínicas, não valores oficiais, piso profissional ou recomendação do Conselho. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui assessoria contábil e jurídica individualizada nem orientação do seu Conselho Regional de Psicologia — confirme o texto vigente das resoluções no site do CFP antes de fechar qualquer acordo.

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